04 fevereiro 2007

"eu volto"

a fortaleza se desfaz
todo o riso se contrai
corpo estendido no quarto
fechado
lágrimas e temporais
dias tristes
mas a cima da dor a esperança
"eu volto"

temos esta esperança como âncora da alma
firme
segura

ergue-se a fé
as pernas se firmam
ressoa o canto eterno
"há salvação"
a voz de Cristo me refaz
todo o medo se contrai
acima da dor há esperança
"eu volto"

17 janeiro 2007

foi ótimo

raízes novas em terra firme
parece que o sorriso não é só meu
o vento bagunça o cabelo e o medo
o vento sopra onde quer

o filme parece fotografia
as passageiras soltam gargalhadas
movimento de trafego e segredos
movimento de origem exata

ainda

O tempo parece sempre ser pouco debaixo do sol.
O muito parece sempre ser nada diante do tempo.

Passei o ano novo sentindo muito medo e muita vergonha.
Muito das minhas reflexões ainda abrangem a morte do Lelê.
Será até quando essa morte me vai acompanhar?
O tema não esgota a tristeza, a tristeza não esgota o tema.
Os olhos não se fartam de produzir lagrimas.

As sombras das memórias são infindas.

A cada dia descubro um novo cômodo empoeirado de significâncias.
Os objetos precisam ser lançados fora, reconheço,
duro é olhar para eles afirmar, você é lixo de agora em diante.

JÔNJÔN: você com toda essa tragédia... se sente, mais viva ou mais morta?
Liz: mais viva... e mais morta.
JÔNJÔN: entao continuas igual só que mais!

04 dezembro 2006

simples assim

muito do comodismo se incomodou
muito do incômodo se silenciou
muito do silêncio se repetiu
muito da repetição se afogou
muito do afogamento se aprofundou
muito da profundidade se perdeu
muito da perda deixou saudades

30 novembro 2006

paisagem interna

sob olhar ofuscado por lágrimas
estão as mãos que pressionam o rosto
o tempo é concedido em proporções lentas
ela chora

sob nuvens de lascas memoriais
estão pernas cruzadas que sustentam sua individualidade
uma menina na grama e um caderno vazio
ombros baixos

com suas palavras
queria alcançar o tato e o paladar
pois o que sente tem textura e sabor
ela apenas chora

então, o sono contrai o corpo
mas não sacia o cansaço

o que te fere menina calada?
volte a ouvir o som das cores!

10 novembro 2006

retrato do que estou sentindo

o sofrimento estava próximo da gente,
mas éramos alheios a ele,
até que ele morre

como um finco
não consigo fugir das memórias
das conversas, das queixas
dos choros, das histórias
“os lutos, não podem ser esquecidos por ninguém”

o choro volta como um vulto dentro de mim
e se expõe

agora o sofrimento está em nós
sofremos
a morte é amarga para os que ficam
ainda mais porque ele era amigo presente

as ultimas palavras do Lelê pra mim:
“que bom que você veio aqui, Deus te abençoe no teatro”
dei-lhe um beijo na testa
naquele quarto daquele hospital

07 novembro 2006

a morte do meu melhor amigo


“Não estou aqui para lamentar a morte de um jovem de 23 anos que sofreu por ter câncer; nem para lamentar a morte de um estudante de agronomia ou de um diácono da nossa igreja, não estou aqui para lamentar a morte de um estranho, estou aqui para lamentar a morte do meu irmão. E eu lamento a morte do Lelê. Pra quem não sabe, o Lelê era o meu melhor amigo e eu o amava."

É muito difícil perder um amigo.
É muito difícil.
Uma dor que sinto nas juntas.
Um lamento que não tem consolo nem solução.
Um lamento profundo e impotente.
Eu não posso mais dizer que “nunca senti na pele a dor gemida” porque escrevo entre gemidos, entre fôlegos pesados.
Eis “uma perda próxima demais”.
Um lamento insistente e eu sei que permanecerá por muito tempo ainda.

Queria registrar algumas cenas marcantes:
- Ver os amigos carregando o caixão
- Ver a igreja tão cheia, quando os jovens foram à frente para cantar não couberam e encheram os corredores laterais do templo
- Conseguir falar segurando o choro
- Ouvir a Jamille e o Daniel falarem
- Jony – “se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos”
- “se paz a mais doce me deres gozar, se dor a mais forte sofrer...”
- assistir o pedreiro fechar o túmulo
- voltar pra casa no carro em silencio

Temos que fazer valer a pena!
Eu tenho que fazer valer a pena.

O que mais me consola? - Perceber no choro e na expressão de alguns amigos a mesma tristeza que eu sinto. - Lembrar das nossas conversas.. “liz.. é muito bom que você veio aqui sabia?” ..” liz, dá pra você passar aqui na sexta a tarde?”, “aqui, lê aquele texto lá de novo.. “ (2Cor4...) ... “esse câncer não é para a morte, mas para a glória de Deus” ...