19 janeiro 2019

Lá vamos nós



Entre o certo e incerto seguimos.
Entre o passado e o futuro,
Entre a rua e o muro
Entre o fácil e o duro.

Por florestas de pensamentos, ideias e mais ideias, por rios de prazer e dor. Águas cristalinas e fundas, seguras e misteriosas. Entre a superfície e o mergulho, seguimos. As respostas se desvendam nas tentativas sucessivas, na graça recebida, na prece, no ombro amigo, no texto antigo.

Entre eu e você, seguimos.
Entre a bagunça e o arrumado,
Entre o dia bom e o estragado,
Entre o cedo e o atrasado.

Por dentro e por fora, por nuvens e brisas há tanto que sentir e ser. Por tantas trilhas sonoras e conversas noite a fora, vamos!  Pela fé e pela incredulidade, pelo paraíso e pela realidade, vamos! Pela vida adentro pelos corações pulsando, nada importa mais do que seguir frente aos desafios. Nada se compara com o que ainda está por vir, vamos! Vamos! Nós e as bagagens, vamos com tudo! Vamos de peito aberto! Nós e os nossos anseios, os meninos, os seus travesseiros, e a Maria, não a deixe cair, só não deixe cair!  Não deixe cair os sonhos, não perca nem uma só página de alento. 

Vamos seguir atentos.
Entre o claro e o escuro.
Entre o perigoso e o seguro.
Entre o verde e o maduro.

Temos tanto o que experimentar e descobrir, seja aqui, seja ali, isso não importa tanto quanto o compromisso que temos de seguirmos juntos. Em frente pela busca do amanhã, do sol que nascerá adiante, da vida se desabrochando em flores, matagais e espinheiros. Em frente! Pelo encontro de minas escondidas, e da bebida que mata a sede interior! Em frente! Pelo vento que sopra sorrateiro, pelo recomeço inesperado, pelo tempo de juntar e pelo tempo de espalhar, pelas chegadas e despedidas. "O trilho se estende, não vemos seu fim, nem as voltas que possam vir"... Uma pipa amarela voando, e nós? Vamos seguindo no nosso compasso, no ritmo e na força das pernas pedalando juntas. Um João-de-barro faz seu ninho aqui em casa e continuamos. Um sabiá dá o tom no por do sol e seguimos um pouco mais. A andorinha chama o verão na alvorada, sorrimos, e avante! Os passarinhos são passageiros, também as plantas e todo cenário se compõe. Eu quero viver mais, quero viver bem e simplesmente. Respiro fundo, alguns segundos passam enquanto passo as roupas e as deito na cama. Entre agora e daqui a pouco tudo estará terminado por hoje, amanhã guarda seus próprios mistérios.

13 janeiro 2019

"Vai parar?"




Eu sei que a maternidade não é para todas, seja por circunstâncias ou por decisão, nem todas as mulheres serão mães. Houve um tempo em que eu achava que não seria pra mim, mas fico feliz que ela me encontrou. Fico feliz de ver um amor novo desabrochar a cada chegada de uma nova pessoa.
Na véspera do nascimento do nosso primeiro filho perguntei apreensiva para a minha mãe "e o leite?", ela disse calmamente, “quando ele nascer, virá”. "Mas, mãe, e o amor?".

A verdade é que eu não sabia se eu seria capaz de amar naturalmente alguém que eu nem conhecia, que não sabia falar. Quando eu me apaixonei pelo Pedro era, em muitos sentidos, um amor pelas suas ideias nosso namoro foi regado de conversas e textos. Como amar um neném?

Agora na terceira, estamos mais maduros, os meninos já são companhia um pro e consigo focar nas necessidades da Maria sem sentir que estou negligente, pois eles estão felizes.  Não vou dizer que está tudo em ordem, seria exagero, mas está tudo em paz cada um tranquilamente procurando seu papel nessa nova realidade.  Todo mundo me pergunta "vai parar?", Sempre digo que não sei. Mas a verdade é que já não consigo imaginar a vida sem Maria. É tão maravilhoso tê-la que a pergunta mais pertinente seria "como vai conseguir parar?". O amor, ah! O amor só multiplica!


31 outubro 2017

O melhor que as mães podem oferecer




Deus tem planos para nós que nem sempre (quase nunca) são os planos que traçamos para nós mesmos. Após um tempo tentando engravidar, sem sucesso, decidimos entrar para o banco nacional de adoção. Nosso pedido de adotar duas irmãzinhas foi negado, entretanto, vários anos depois, hoje somos pais de dois irmãozinhos, João e Davi.

Tenho para mim que a maternidade é um caminho de Deus para o cuidado das pessoas, o cuidado do seu povo. Quando a maternidade é bem vivida, os filhos tem uma representação viva do amor e da hospitalidade de Deus. Amamos porque Ele nos amou primeiro, acolhemos porque fomos acolhidas.

A maternidade é um caminho de benção pessoal e comunitária, é uma continuação, uma herança, um vislumbre da família e da igreja de amanhã contagiando e povoando a terra. Portanto no cerne da experiência materna está o desafio e o chamado ao discipulado, e o que as mães poderiam ter de melhor para oferecer aos seus filhos? Não consigo pensar em nada senão uma vida espiritual sadia e sabedoria para dar bons conselhos na hora certa. Em longo prazo me parece uma combinação belíssima. Acontece que podemos rechear essas virtudes com poesias e delicadezas, e preencher o tempo com mesas postas, receitas tradicionais, historias, viagens, plantas, bichos e tudo mais. Conheço uma mãe que passava roupas orando por cada membro de sua família de acordo com a peça que estava sobre a tábua. Há formas e formas de se encarar a missão.

Hoje, nessa primeira infância, deliciosa e cotidiana, ofereço aos meus pequenos simplesmente a minha companhia e colo de mãe, sinto que já é um bom começo. 

29 agosto 2017

Pausa



No final da rua esperam ansioso os meninos por descerem a rampa e encontrarem a turma. Por volta das 9h00 é o tempo áureo do dia onde todos os pequenos do bairro se encontram para nos conduzirem por um mundo que apenas deixa saudades. Espadas feitas de gravetos, carros feitos de pedras e até mesmo câmeras fotográficas feitas de tampinhas de plástico. Nesse mundo não tem rico nem pobre, apenas aventuras. Os mais velhos (dois e três anos) dirigem um carro que logo vira barco, sentados num banco (tora de madeira) no meio da floresta (jardim do vizinho) e desviam de leões (postes), ursos (irmãos mais novos) e monstros (carrinho de bebê). Tudo vira tudo.

Logo que saem o silêncio abriga a casa.

No final da rua o menino de dois anos sobe a rampa chorando. Sono. Por volta das 10h30 o tempo se fecha junto com os olhos dos pequenos.  Lavar as mãos pode ser um enorme desafio para a mãe que tenta administrar a irritação e cansaço de dois. Por que é tão mais prazeroso descer a rampa? Por que subir também se faz necessário e parte de uma rotina que se estende para além de meninos, mundos e sonos? Descer a rampa significa começo, expectativa. Subir a rampa significa pausar.

Logo que dormem o silencio abriga a casa.

Que horas são em minha vida? São 10h30, hora da pausa.  Ser autônoma, artista, e mãe de dois significa pausar. Pausar é diferente de parar. Parar é por volta das 20h quando após o banho dormem até o dia seguinte. Parar seria desistir de produzir música, espaço, poesia; mas, pausar significa poder continuar a fazer tudo isso, só que depois.

Depois.

- Mãe, posso ver desenho?
- Depois.
- Mãe, pode nadar na piscina grande?
- Depois.
- Mãe, um dia posso usar facas?
- Sim, um dia...

Depois.

- Senhor, posso voltar a compor e tocar?
- Depois.
- Deus, posso melhorar a minha arte e fazer o que eu amo?
- Depois.
- Pai, um dia posso escrever algo relevante?
- Sim, Liz, um dia...

03 maio 2017

Uma invenção incrível



- Mãe, eu e o papai tivemos uma ideia! Vamos fazer uma invenção incrível que fará dormir todas as crianças sem sono DO MUNDO TODO.

 - Uau! Como farão essa façanha?


- Vamos desenhar o sono. Nosso desenho será tão confortante e perfeito que todas as crianças DO MUNDO TODO entenderão, até o Davi.


- E, o que farão com esse desenho?


- A gente vai mostrar pra elas. Mas, se estiver escuro vamos abanar uma brisa com o nosso desenho, assim elas poderão respirar o sono, não é incrível?


- Incrível é a palavra certa. 


- Viu? 

- Aham..

- Também, para os bebês que não sabem ler desenhos, a gente pode pegar nosso papel e bater no liquidificador e misturar na mamadeira deles, assim eles podem internalizar o sono mesmo sem ler.

- sei...


- Eu e o papai pensamos em tudo, só que agora eu que estou com sono, e, o papai dormiu na minha cama. O que eu faço?


- Dorme aqui no lugar dele. Abraça seu travesseirinho. Quer carinho na cabeça?


- Na barriga.


- Então deita.


- Mamãe, amanhã você me lembra da minha ideia?


- Só dorme, filhinho, que amanhã guarda as suas próprias ideias.


26 abril 2017

Meu quebra-cabeça interior




Ninguém me ensinou a me entender. Esse quebra-cabeça é só meu. Meu desafio diário, meu desafio constante, minha ambulante busca por clareza interior. Camadas e camadas de informação, percursos de pensamentos indo e vindo. Matagal fechado, galhos e mais galhos, folhas a perder de vista.

É uma caminhada, já se passaram mais de trinta anos. Amadureci, encontrei novas respostas para velhas questões. Mas esse não é o ponto. O ponto é que o barro sempre será barro. Eu sempre serei humana e os pensamentos vagueiam feito uns vagalumes. Acendem, entendi! Apagam, cadê? É uma verdadeira irregularidade.

Meu amor por quebra-cabeças cresce ao perceber-me peça e também conjunto. Pedaço e também inteira. Complicada e também simples como um encaixe. Quero me conhecer ainda melhor. Quero ser mais transparente com você. Boa tarde, qual é o seu verdadeiro nome?

A valentia de uma flor silvestre me desafia. Sua delicadeza e seu encobrimento, mistérios de um criador empolgado em fazer florescer as belezas mais sublimes em terrenos inóspitos, encostas sem observantes. Identifico-me com meu próprio nome e com tantos outros nomes. Sou mesmo Liz. Sou também pedra, barro e sabiá. Uma flor de campo que num dia floresce e noutro murcha como a relva. Sou também nuvem, barco e alfinete. Um ponto fixo no espaço imenso e no tempo escolhido para eu viver, nas matas dos dias chamados “hoje”.