07 abril 2017

A beleza da fragilidade







































Hoje em dia dizer-se frágil é quase como dizer que está sujo, ou pior, com uma doença terminal. A fragilidade humana é cuspida. Não se pode admitir frágil sem suspeita de fraqueza emocional. Mas o fato incontornável é que eu sou frágil. Tenho isso por certo. Sinto-me em paz com essa noção e, aliás, admitir isso muitas vezes me fez viver melhor e me fez pedir ajuda na hora certa.

Uma pausa para pensar em folhas secas. Chega o inverno as folhas caem, secas, únicas, coloridas ao vento.

No meu entendimento, fragilidade nada mais é do que a efemeridade, a possibilidade de quebrar-se, a necessidade de cuidado.

Talvez por causa da minha intimidade com a minha própria fragilidade tive uma aceitação quase que instantânea às obras de arte que lidam com o efêmero. As instalações, performances, site specific, land art e suas companheiras todas fazem grande sentido existencial pra mim. De certa forma a própria vida é a junção de todas elas desdobrando-se feito origami e revelando a qualidade do nosso ser, nosso real formato e as marcas que nos trazem ao presente; no corpo, no espírito.

Este atributo secreto que de certo modo todos carregamos é algo que nos une. Torna-nos indispensáveis ao convívio e, principalmente, ao afeto. Torna-nos igualmente machucáveis, mas também empáticos. Temos capacidade de demonstrar misericórdia simplesmente porque nós também nos machucamos de tempo em tempo e, portanto, sabemos o que uma visita pode curar.

Um pedaço de barro nas mãos de um escultor. Vidas expostas ao tempo e ao abrigo de um abraço. Mãos encostadas e acenos que não podem conter a dor da despedida, mãos graciosamente desenhando um adeus. “Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida?” (Lc 12.25).

Há algo de bonito nessa finitude destacada. Para mim, acredito que seja o caminho da lembrança; simplesmente porque vejo a minha fragilidade posso mais facilmente me lançar no acolhimento da graça do Pai. 

01 abril 2017

O amor como tarefa

























Ele está chorando de cansaço, mas precisa desse banho para dormir melhor. Enxugo. Visto a roupa com dificuldade nessa pessoinha relutante. Vejo-o adormecer, então torno à minha tarefa seguinte: guardar as coisas.

Juntando os brinquedos na sala, pego-me juntando as definições das palavras. Organizo o espaço vazio e na mente tento guardar as coisas em termos objetivos e práticos. Faço disso uma brincadeira e procuro sedimentar o meu coração com as conclusões porque na hora do aperto é sempre bom já ter as pedras organizadas. Na hora da enxurrada é bom já ter um arrimo emocional.

“Desejo = algo que precisa ser adestrado”

“Coragem = fazer o que precisa ser feito”

Amor?

Passo a refletir nos clichês e nos ditados populares. Essas coisas perduram décadas, sem dúvida têm algum valor. Minha avó carinhosamente dizia que “o amor é uma flor roxa, que nasce no coração do trouxa”. É um exercício meio engraçado querer definir as coisas. Rio um pouco de mim mesma, mas não me impeço de prosseguir. Mergulho abertamente no desejo de querer acertar. O que é amar? O que é o amor? Jesus nos deu uma tarefa “amem-se uns aos outros como eu vos amei”.

Minha bisavó seriamente dizia que “amar é ceder”.

Enquanto os termos estão vagando distantes numa tentativa cósmica de abraçar o mundo, eles parecem também um pouco imaginários. Como uma sala de brinquedos vagantes pelo chão formando jograis de poemas dadaístas. Hollywood sempre me ensinou que “amar é sentir”. Sentir. Essa coisa vaga e absurdamente confusa que nos atinge em correntezas. Sentir, essa força inquieta e insaciável, fluida e inconstante. Acredito que sentimentos são componentes de todas as palavras, mas amar é mais do que sentir. Sentir não dá banho na criança cansada, não segura um casamento em crise, não troca fraldas, não contém as enxurradas da vida. Minha bisa é mais palpável “ceder”, reclinar-se em favor de alguém.

O velho livro afirma “quem não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor”.

Ceder é uma boa palavra, mas também não diz tudo. O velho livro acrescenta algo a mais: conhecer. Não-amar é desconhecer, logo para amar é imprescindível conhecer, conhecer a Deus.

Acabo de pensar numa coisa boba: não é preciso gostar, apenas amar. Ceder e conhecer são coisas possíveis de serem feitas mesmo sem gostar. Claro que gostar facilita muito. Gostando, os desejos precisam ser menos adestrados pois fluem naturalmente na direção certa. Amar gostando exige menos coragem.

Outra pausa para rir. Quanta simplicidade! E eu aqui reinventando a roda. “[...]como eu vos amei”. Ora, Jesus, meu guia, traçou o caminho. Mesmo não querendo, bebeu do cálice. Mesmo não gostando, suspirou o suspiro amargo. Depois dessa parece um pouco patética a minha comparação com juntar brinquedos na sala, mas é essa a minha saga de hoje, guardar, organizar, repetir, refazer.

Trago minha pergunta sobre amor para o meu dia a dia. Logo percebo que demonstrar amor é muito mais pequenas atitudes de cuidado do que palavras afetuosas ou sentimentos. A soma dessas atitudes de alguma forma solidifica em mim um sentimento cósmico de abraçar o mundo do outro. De querer o bem dele. Mas em suma são apenas pequenas tarefas de juntar objetos coloridos, um instante de cada vez.

Ele estava chorando de cansaço, mas agora dorme silencioso enquanto escrevo no computador.

“Amor = uma tarefa”.