03 maio 2017

Uma invenção incrível



- Mãe, eu e o papai tivemos uma ideia! Vamos fazer uma invenção incrível que fará dormir todas as crianças sem sono DO MUNDO TODO.

 - Uau! Como farão essa façanha?


- Vamos desenhar o sono. Nosso desenho será tão confortante e perfeito que todas as crianças DO MUNDO TODO entenderão, até o Davi.


- E, o que farão com esse desenho?


- A gente vai mostrar pra elas. Mas, se estiver escuro vamos abanar uma brisa com o nosso desenho, assim elas poderão respirar o sono, não é incrível?


- Incrível é a palavra certa. 


- Viu? 

- Aham..

- Também, para os bebês que não sabem ler desenhos, a gente pode pegar nosso papel e bater no liquidificador e misturar na mamadeira deles, assim eles podem internalizar o sono mesmo sem ler.

- sei...


- Eu e o papai pensamos em tudo, só que agora eu que estou com sono, e, o papai dormiu na minha cama. O que eu faço?


- Dorme aqui no lugar dele. Abraça seu travesseirinho. Quer carinho na cabeça?


- Na barriga.


- Então deita.


- Mamãe, amanhã você me lembra da minha ideia?


- Só dorme, filhinho, que amanhã guarda as suas próprias ideias.


26 abril 2017

Meu quebra-cabeça interior




Ninguém me ensinou a me entender. Esse quebra-cabeça é só meu. Meu desafio diário, meu desafio constante, minha ambulante busca por clareza interior. Camadas e camadas de informação, percursos de pensamentos indo e vindo. Matagal fechado, galhos e mais galhos, folhas a perder de vista.

É uma caminhada, já se passaram mais de trinta anos. Amadureci, encontrei novas respostas para velhas questões. Mas esse não é o ponto. O ponto é que o barro sempre será barro. Eu sempre serei humana e os pensamentos vagueiam feito uns vagalumes. Acendem, entendi! Apagam, cadê? É uma verdadeira irregularidade.

Meu amor por quebra-cabeças cresce ao perceber-me peça e também conjunto. Pedaço e também inteira. Complicada e também simples como um encaixe. Quero me conhecer ainda melhor. Quero ser mais transparente com você. Boa tarde, qual é o seu verdadeiro nome?

A valentia de uma flor silvestre me desafia. Sua delicadeza e seu encobrimento, mistérios de um criador empolgado em fazer florescer as belezas mais sublimes em terrenos inóspitos, encostas sem observantes. Identifico-me com meu próprio nome e com tantos outros nomes. Sou mesmo Liz. Sou também pedra, barro e sabiá. Uma flor de campo que num dia floresce e noutro murcha como a relva. Sou também nuvem, barco e alfinete. Um ponto fixo no espaço imenso e no tempo escolhido para eu viver, nas matas dos dias chamados “hoje”.

24 abril 2017

Poema de brincadeira


Venha, amigo! 
Venha, amiga! 
Me dê a sua mão.
Gira a roda, gira o mundo, e espanta a solidão.
Passos largos, bem ligeiros, dole uma, dole três!
Fique só mais um pouquinho?
Brinque só mais uma vez?

07 abril 2017

A beleza da fragilidade







































Hoje em dia dizer-se frágil é quase como dizer que está sujo, ou pior, com uma doença terminal. A fragilidade humana é cuspida. Não se pode admitir frágil sem suspeita de fraqueza emocional. Mas o fato incontornável é que eu sou frágil. Tenho isso por certo. Sinto-me em paz com essa noção e, aliás, admitir isso muitas vezes me fez viver melhor e me fez pedir ajuda na hora certa.

Uma pausa para pensar em folhas secas. Chega o inverno as folhas caem, secas, únicas, coloridas ao vento.

No meu entendimento, fragilidade nada mais é do que a efemeridade, a possibilidade de quebrar-se, a necessidade de cuidado.

Talvez por causa da minha intimidade com a minha própria fragilidade tive uma aceitação quase que instantânea às obras de arte que lidam com o efêmero. As instalações, performances, site specific, land art e suas companheiras todas fazem grande sentido existencial pra mim. De certa forma a própria vida é a junção de todas elas desdobrando-se feito origami e revelando a qualidade do nosso ser, nosso real formato e as marcas que nos trazem ao presente; no corpo, no espírito.

Este atributo secreto que de certo modo todos carregamos é algo que nos une. Torna-nos indispensáveis ao convívio e, principalmente, ao afeto. Torna-nos igualmente machucáveis, mas também empáticos. Temos capacidade de demonstrar misericórdia simplesmente porque nós também nos machucamos de tempo em tempo e, portanto, sabemos o que uma visita pode curar.

Um pedaço de barro nas mãos de um escultor. Vidas expostas ao tempo e ao abrigo de um abraço. Mãos encostadas e acenos que não podem conter a dor da despedida, mãos graciosamente desenhando um adeus. “Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida?” (Lc 12.25).

Há algo de bonito nessa finitude destacada. Para mim, acredito que seja o caminho da lembrança; simplesmente porque vejo a minha fragilidade posso mais facilmente me lançar no acolhimento da graça do Pai. 

01 abril 2017

O amor como tarefa

























Ele está chorando de cansaço, mas precisa desse banho para dormir melhor. Enxugo. Visto a roupa com dificuldade nessa pessoinha relutante. Vejo-o adormecer, então torno à minha tarefa seguinte: guardar as coisas.

Juntando os brinquedos na sala, pego-me juntando as definições das palavras. Organizo o espaço vazio e na mente tento guardar as coisas em termos objetivos e práticos. Faço disso uma brincadeira e procuro sedimentar o meu coração com as conclusões porque na hora do aperto é sempre bom já ter as pedras organizadas. Na hora da enxurrada é bom já ter um arrimo emocional.

“Desejo = algo que precisa ser adestrado”

“Coragem = fazer o que precisa ser feito”

Amor?

Passo a refletir nos clichês e nos ditados populares. Essas coisas perduram décadas, sem dúvida têm algum valor. Minha avó carinhosamente dizia que “o amor é uma flor roxa, que nasce no coração do trouxa”. É um exercício meio engraçado querer definir as coisas. Rio um pouco de mim mesma, mas não me impeço de prosseguir. Mergulho abertamente no desejo de querer acertar. O que é amar? O que é o amor? Jesus nos deu uma tarefa “amem-se uns aos outros como eu vos amei”.

Minha bisavó seriamente dizia que “amar é ceder”.

Enquanto os termos estão vagando distantes numa tentativa cósmica de abraçar o mundo, eles parecem também um pouco imaginários. Como uma sala de brinquedos vagantes pelo chão formando jograis de poemas dadaístas. Hollywood sempre me ensinou que “amar é sentir”. Sentir. Essa coisa vaga e absurdamente confusa que nos atinge em correntezas. Sentir, essa força inquieta e insaciável, fluida e inconstante. Acredito que sentimentos são componentes de todas as palavras, mas amar é mais do que sentir. Sentir não dá banho na criança cansada, não segura um casamento em crise, não troca fraldas, não contém as enxurradas da vida. Minha bisa é mais palpável “ceder”, reclinar-se em favor de alguém.

O velho livro afirma “quem não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor”.

Ceder é uma boa palavra, mas também não diz tudo. O velho livro acrescenta algo a mais: conhecer. Não-amar é desconhecer, logo para amar é imprescindível conhecer, conhecer a Deus.

Acabo de pensar numa coisa boba: não é preciso gostar, apenas amar. Ceder e conhecer são coisas possíveis de serem feitas mesmo sem gostar. Claro que gostar facilita muito. Gostando, os desejos precisam ser menos adestrados pois fluem naturalmente na direção certa. Amar gostando exige menos coragem.

Outra pausa para rir. Quanta simplicidade! E eu aqui reinventando a roda. “[...]como eu vos amei”. Ora, Jesus, meu guia, traçou o caminho. Mesmo não querendo, bebeu do cálice. Mesmo não gostando, suspirou o suspiro amargo. Depois dessa parece um pouco patética a minha comparação com juntar brinquedos na sala, mas é essa a minha saga de hoje, guardar, organizar, repetir, refazer.

Trago minha pergunta sobre amor para o meu dia a dia. Logo percebo que demonstrar amor é muito mais pequenas atitudes de cuidado do que palavras afetuosas ou sentimentos. A soma dessas atitudes de alguma forma solidifica em mim um sentimento cósmico de abraçar o mundo do outro. De querer o bem dele. Mas em suma são apenas pequenas tarefas de juntar objetos coloridos, um instante de cada vez.

Ele estava chorando de cansaço, mas agora dorme silencioso enquanto escrevo no computador.

“Amor = uma tarefa”.

07 março 2017

Sobre pais e filhos


























O menino olha para o pai e vê uma vívida encarnação da fantasia. O craque de bola, o homem mais forte e destemido. “Quando eu crescer”, diz meu João, “serei bem grande igual meu pai, e vou poder usar facas para descascar laranjas.”

A vida tem cursos curiosos. Não é a toada dos rios, nem sempre corre para baixo, nem sempre desemboca no mar. A fantasia, assim como a esperança, são mecanismos válidos – dádivas – para alimentar o contentamento diário. Cada uma tem seu tempo e lugar, a fantasia a agita e alegra, enquanto a esperança é a âncora da alma.

O pai olha para o filho e encontra um mundo de possibilidades em quem nem sabe ainda usar de palavras para se comunicar. Um amor profundo vai se solidificando e a esperança de ver o menino crescer inunda seu corpo. O afeto se dá em gestos corriqueiros de cuidado. O pai olha para o filho e vê uma vívida encarnação da esperança.

Nesse mundo curioso e torto muitos pais não têm filhos e muitos filhos não tem pais. Os olhares ficam vagando no infinito sem se cruzarem. Isso faz do mundo um lugar um pouco mais triste. As fantasias e esperanças invertem posições. O filho tem esperança de saber do pai e o pai fantasia um filho que não conhece.

Aqui em casa tem um pai e dois filhos. Eles se olham constantemente. Davi sente cocegas das barbas de Pedro, João gosta do homem aranha, de caminhões, de milho e do Palmeiras*. Eles se olham. Davi adormece no colo de Pedro, João é levado para cama pelos braços dispostos de quem ama com gestos corriqueiros de cuidado.

– Você sabe correr, mamãe? – pergunta João.
– Sei – respondo.
– Bem rápido?
– Mais ou menos rápido.
– Igual meu papai “Pedu”? Meu papai “Pedu” corre bem rápido, muito, muito rápido, tá bom?
– Tá bom. Agora concentra e faz seu xixi.  


  

*Uma FORTE influência do “papai Pedu”, ainda mais quando é colocado do lado de milho (comida predileta). 

09 fevereiro 2017

Maternidade concedida


Tenho acolhido o fato de que me foi concedida a experiência materna. Essa concessão partiu de mãos divinas e passou por mãos médicas e caiu nos meus braços como quem abraça um travesseiro de estimação. Eu não sei ainda compreender toda a profundidade desse fato, mas já entendi que ser mãe é uma coisa que se instalou na minha identidade. Quem é você? Sou...

Acompanhe meu raciocínio, quando tirei carteira de motorista obtive um certificado. Eu então pude dirigir perante a lei. Nada mais. Quem sou eu? Nem toco no assunto de dirigir ou não... Quando graduei em arquitetura foi uma etapa concluída, um valor agregado ao meu arsenal de habilitações. Mestrado, idem. E assim, títulos parecem estar num nível distante da profundidade que é uma identidade. Maternidade não. Nove meses; zero preparo; não tive que passar testes ou provas, apenas esperei e acompanhei a transformação um tanto alienígena do meu corpo sendo invadido por outro serzinho que além de sugar meu oxigênio nasceu com uma caneta permanente na mão e escreveu na minha testa “mãe”.

Quando faço o caminho inverso e concluo que jamais não serei mãe, encolho.

Quem sou eu?

A espiritualidade cristã, a qual me embrulha, também fala de identidade, e, para o meu espanto, ela começa com um nascimento. “Filha”. Deus, em sua eterna bondade, permite-nos renascer para que tenhamos uma marca permanente, ‘nascidos’. O nascimento é o momento em que passamos a ser o que não éramos. Uma semente germinando e rompendo chão. A partir dele somos costurados à trindade com um laço familiar e irreversível. A partir de então “quem sou?” muda.

Assim como após o nascimento espiritual, onde eu sou a filha, após o nascimento físico, onde eu sou a mãe, há um caminho a percorrer. Algumas coisas acontecem sem muito esforço outras exigem toda a minha concentração. Como filha de Deus preciso aprender a reconhecer a sua voz dentre todas as vozes; como mãe, preciso reconhecer o chorinho deles dentre todos os choros. Como filha, preciso me satisfazer no seu compasso, me abrigar nos seus conselhos. Como mãe, preciso me contentar em minhas limitações, e fornecer o abrigo necessário.  Em ambos os casos é uma estrada sem retorno.

Fico me perguntando afinal o que mudou em mim depois que virei mãe? Aí me pego falando superficialidades. A verdade é que mudou tudo, mas sem fazer um furacão. Tipo quando você põe uma pitada de canela no molho sugo. Sem mais nem menos ganhei três letras m-ã-e. Uma concessão literária, filosófica e existencial. Uma janela que se abriu para um jardim interno e espaçoso que eu nem sabia estava lá. Ouso dizer que a própria felicidade me deu um dos seus sorrisos amigo. Estou aqui agradecida, sorrindo de volta. 

15 janeiro 2017

Alegrias específicas

"...pequenas alegrias que nos fazem rir sozinhos quando o iogurte se derrama e você vê o formato de uma tartaruga."

Sabe aquela sensação de pegar uma pecinha no mar de pecinhas do quebra-cabeça e encaixar de primeira? Você aprende uma dobradura nova e finalmente todas as dobras se alinham sem sobrar nem faltar. Um café fresco numa xícara bonita! Esses dias meu filho João, 2 anos, aprendeu a usar a tesoura, então do nada ele vira pra mim e diz: “mamãe, quero cortar papel!”.  Estamos almoçando, vendo desenho, brincando lá fora coisas que ele gosta de fazer, mas aí ele se lembra da tesoura, de como ela encaixa na mão, de como faz um barulhinho e desliza no papel dividindo-o em dois e então diz: “mamãe, quero cortar papel!”. 

Alegria é um tema profundo. Tem livros escritos sobre ela. Muitos livros. Eu sei disso, mas só quero ressaltar o fato de que existem alegrias específicas, essa coisa humilde de você encontrar seu lugar no mundo, de se descobrir, viver bem e conseguir ter domínio próprio. Eu sei que tem uma alegria mais sublime e profunda, e acredito que dela emanam pequenas alegrias que nos fazem rir sozinhos quando o iogurte se derrama e você vê o formato de uma tartaruga. As alegrias específicas são uma delícia. Parece que cada pessoa tem as suas. Elas tornam o correr da vida mais agradável, mais possível de ser vivida.

Também queria dizer que por vezes acho que as pessoas parecem mais fixadas nessas alegrias secundárias que na raiz, no cerne da coisa. Querem sexo sem casamento (compromisso), querem delírio sem ter o esforço, é quase como escalar uma montanha de helicóptero e ficar tirando selfies no topo da paisagem... mmm não é a MESMA coisa. Tomar o suco é bom, mas ir ao quintal (ou feira) e colher as frutas, selecionar, lavar, bater, coar, adoçar, então sentar na varandinha e beber um suco, é disso que estou falando. O suco ganha outra dimensão. Oferecer um suco passa a ser repartir a vida. Não entendo muito de arvores, mas acho que se alegria fosse uma planta, seria daquelas espécies que tem a mesma altura pra dentro da terra que tem pra fora, sabe? Não me leve a mal. Eu amo as alegrias específicas, cordas novas no violão, um espaço com proporções áureas, comida caseira, dormir de pijama. Mas também não quero parar por aqui. Quero a alegria profunda da alma que se solidifica num encontro diário com o Deus criador, um sentimento não evasivo ou etéreo, mas constante que persiste em meio a dor e tal. Quero então colher as alegrias específicas do mesmo modo que eu chupo mexerica no quintal da casa de uma amiga. O ponto central é que eu fui à casa da minha amiga, de quebra chupei mexerica no quintal, cuspi os caroços no chão sem preocupar, lavamos as mãos na bica e a conversa seguiu viagem.