01 abril 2017

O amor como tarefa

























Ele está chorando de cansaço, mas precisa desse banho para dormir melhor. Enxugo. Visto a roupa com dificuldade nessa pessoinha relutante. Vejo-o adormecer, então torno à minha tarefa seguinte: guardar as coisas.

Juntando os brinquedos na sala, pego-me juntando as definições das palavras. Organizo o espaço vazio e na mente tento guardar as coisas em termos objetivos e práticos. Faço disso uma brincadeira e procuro sedimentar o meu coração com as conclusões porque na hora do aperto é sempre bom já ter as pedras organizadas. Na hora da enxurrada é bom já ter um arrimo emocional.

“Desejo = algo que precisa ser adestrado”

“Coragem = fazer o que precisa ser feito”

Amor?

Passo a refletir nos clichês e nos ditados populares. Essas coisas perduram décadas, sem dúvida têm algum valor. Minha avó carinhosamente dizia que “o amor é uma flor roxa, que nasce no coração do trouxa”. É um exercício meio engraçado querer definir as coisas. Rio um pouco de mim mesma, mas não me impeço de prosseguir. Mergulho abertamente no desejo de querer acertar. O que é amar? O que é o amor? Jesus nos deu uma tarefa “amem-se uns aos outros como eu vos amei”.

Minha bisavó seriamente dizia que “amar é ceder”.

Enquanto os termos estão vagando distantes numa tentativa cósmica de abraçar o mundo, eles parecem também um pouco imaginários. Como uma sala de brinquedos vagantes pelo chão formando jograis de poemas dadaístas. Hollywood sempre me ensinou que “amar é sentir”. Sentir. Essa coisa vaga e absurdamente confusa que nos atinge em correntezas. Sentir, essa força inquieta e insaciável, fluida e inconstante. Acredito que sentimentos são componentes de todas as palavras, mas amar é mais do que sentir. Sentir não dá banho na criança cansada, não segura um casamento em crise, não troca fraldas, não contém as enxurradas da vida. Minha bisa é mais palpável “ceder”, reclinar-se em favor de alguém.

O velho livro afirma “quem não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor”.

Ceder é uma boa palavra, mas também não diz tudo. O velho livro acrescenta algo a mais: conhecer. Não-amar é desconhecer, logo para amar é imprescindível conhecer, conhecer a Deus.

Acabo de pensar numa coisa boba: não é preciso gostar, apenas amar. Ceder e conhecer são coisas possíveis de serem feitas mesmo sem gostar. Claro que gostar facilita muito. Gostando, os desejos precisam ser menos adestrados pois fluem naturalmente na direção certa. Amar gostando exige menos coragem.

Outra pausa para rir. Quanta simplicidade! E eu aqui reinventando a roda. “[...]como eu vos amei”. Ora, Jesus, meu guia, traçou o caminho. Mesmo não querendo, bebeu do cálice. Mesmo não gostando, suspirou o suspiro amargo. Depois dessa parece um pouco patética a minha comparação com juntar brinquedos na sala, mas é essa a minha saga de hoje, guardar, organizar, repetir, refazer.

Trago minha pergunta sobre amor para o meu dia a dia. Logo percebo que demonstrar amor é muito mais pequenas atitudes de cuidado do que palavras afetuosas ou sentimentos. A soma dessas atitudes de alguma forma solidifica em mim um sentimento cósmico de abraçar o mundo do outro. De querer o bem dele. Mas em suma são apenas pequenas tarefas de juntar objetos coloridos, um instante de cada vez.

Ele estava chorando de cansaço, mas agora dorme silencioso enquanto escrevo no computador.

“Amor = uma tarefa”.

4 comentários:

Lane Soares disse...

Ah Liz...
Vc e sua capacidade em descrevem bem o que sentimos e pensamos, mas não temos sua sensibilidade de transformar em palavras..
Tenho amado muito um pequeno de 1 ano e meio, que me desafia diariamente a resignificar cada palavra que conheço.
Bjo pra vc.

Ivny disse...

É isso!
Sempre foi mas a gente talvez não soubesse.
E assim, dia após dia, juntando brinquedos, por amor vamos vivendo (vivendo de verdade) a vida.
Estou pronta para a próxima madrugada.

Geisa Mozzer disse...

É isso mesmo que é amor. Mas só uns poucos conseguem entender essa linguagem tão misteriosa e simples.

Ingrid disse...

Lembro de vc me falando um dia... Amar é dar. Pelo jeito vc continua pensando, pensando... Que bom poder ler os seus pensamentos.
Bom mesmo é perceber que quanto mais exercitamos mais queremos praticar. A maternidade é graciosa.